Wrapped Gown I (1798 - 1810)


Olá a todos!


Volto a partilhar convosco mais uma criação do guarda-roupa histórico, desta vez um vestido de dia-a-dia império. Tudo começou quando comecei a pesquisar sobre vestidos de musseline de algodão, e apaixonei-me pelo estilo "wrapped dress".


Fashion Plates (1798)

Digital Archive of the Kyoto Costume Institute (1795-1800)

Crossover Gown (1804) in Jane Ashelford, The Art of Dress: Clothes and Society 1500-1914

Reúno aqui alguns dos exemplos, tanto fashion plates como duas peças de museu de proveniência distinta, que me inspiraram. A partir destas imagens podemos reparar que eram usados dois métodos de apertar o vestido, tanto à esquerda como à direita.  


Também a Norah Waugh me forneceu (como vem sendo habitual) uma preciosa ajuda em compreender a mecânica desta costura "alien" como costumo dizer. Foi na obra The Cut of Women's Clothes 1600-1930 que encontrei este open gown com fecho wrapped.



Norah Waugh, The Cut of Women's Clothes 1600-1930, p. 155


Passei depois à procura do tecido ideal. Não foi necessário procurar muito. Mais uma vez a Mike Tecidos salvou o dia. Trata-se de um tecido 100% algodão, extremamente macio e transparente tal e qual como o musseline de época seria. A adorná-lo identificam-se subtis motivos florais e cornucópias em branco sobre fundo creme.

Fotografia de Mike Tecidos



E mãos à obra!

Optei por seguir o molde da Laughing Moon Mercantile: Ladie's Wrapping Front Gown c. 1798-1813, porque me oferecia as costas em forma de diamante mais largas do que o molde da peça de museu da Norah Waugh, que aliás é de 1797. O que eu pretendia era um vestido mais típico de 1800, mantendo as meias-mangas. Decidi que também contemplaria as aplicações bordadas ao longo da bainha da saia, mangas e decote, prolongando-se frequentemente ao longo da barra lateral da saia frontal.

E o resultado foi este...




Este pormenor nas costas foi um acrescento posterior, que achei necessário dado que a barra do cinto que fiz com o mesmo tecido do vestido estava constantemente pendente, fazendo com que a cintura do vestido império descaísse para a cintura dita "normal". Estes rolinhos foram feitos a partir da mesma barra de renda que utilizei para as mangas e decote. Trata-se de uma renda de algodão,  em tom cru, muito semelhante à que apliquei na bainha da saia, esta mais larga. 






Tecido de Algodão: Miketecidos
Renda de algodão : Flying Tiger
Linha: Retrosaria Arte&Lã

Fotografias: Rafael Sanches

Black Reticule






Já à uns tempos que andava a maquinar fazer uma reticule, ou como se diz uma... "Reticule Redicule"! Trata-se da carteira/pochete de mão usada pelas mulheres de classe mais alta do século XVIII e princípios do XIX.


Queria pôr à prova de novo a minha capacidade de bordar efeitos decorativos florais e lanceolados, e inspiração não me faltava quando olhava para estas fashion plates do "Journal des Dames et de Modes":


(1797)
    
(1800)

Com alguma sorte, consegui arranjar  Tafetá de seda preta em promoção na Nomalism, a loja em Campo de Ourique (Lisboa), e pensei logo em aproveitar um cantinho do tecido para este projeto.

Comecei por desenhar o formato da reticule em papel vegetal, tomando por base as fashion plates que mostravam este acessório de época. Observei que para além dos motivos florais, também se usavam bordados de letras com as iniciais das proprietárias e figuras greco-romanas que tanto inspiraram o princípio da regência. 

Baseiem-me  igualmente nos moldes da Sense & Sensibility, mais propriamente o molde "The Elegant Lady's Closet" que trazia um bónus com duas variâncias de reticule. Para além disto, o molde também se fazia acompanhar por um pequeno compêndio de motivos bordados usados tanto em acessórios como em vestidos. Dentro desse compêndio encontrei um círculo com pequenos motivos de flores, uma moldura perfeita para iniciais que, como vão ver mais à frente, foi o que optei por seguir. Já o formato da reticule, escolhi fazer a forma de diamante de cinco pontas, semelhante à primeira e terceira imagens da Costume Parisien.




Desenhando os efeitos que queria a adornar a reticule dentro do molde de papel vegetal, comecei a bordar as minhas iniciais com a técnica cordonê, e as hastes da  moldura com o ponto de haste. O laço vermelho e as flores foram preenchidas pelo ponto cheio e para o motivo da haste lanceolada usei o ponto cadeia. Este trabalho foi começado em pleno acampamento histórico em Torres Vedras, e depressa se tornou um vício!


 

Terminado o bordado passei para o trabalho de costura, que em comparação foi muito mais rápido!



Finalizei com a aplicação de cinco berloques feitos em fio de algodão e duas fitas de cetim para apertar.




E Voilá!!!







Tafetá de seda: Nomalism - Tecidos para decoração
Fita de cetim: Retrosaria Arte&Lã
Linhas de bordar: Anchor, O Baú das Linhas




Round Gown (1780 - 1800)



Ufa! Finalmente posso-vos mostrar a mais recente criação do guarda-roupa de finais do século XVIII: um Round Gown!


No início deste projecto, procurava produzir algo que uma burguesa ou fidalga rural do interior de Portugal usaria em  finais do século XVIII / princípios do século XIX, fugindo à regra geral da linha império.  Por isso procurei por vestidos usados nas últimas décadas do século XVIII. Mais uma vez, fui consultar os maravilhosos moldes da Janet Arnold e da Nora Waugh.


Janet Arnold, "Patterns of Fashion 1. Englishwomen's dresses and their construction c. 1660-1860", p. 42

Norah Waugh, "The Cut of Women's Clothes 1600-1930", p. 95


Desta vez a inspiração veio de um lindíssimo vestido Robe à l'Anglaise de 1785-95 pertencente ao MET museum. 


Robe à l'Anglaise (1785-95), America, The Met.

Robe à l'Anglaise (1785-95), America, The Met.


Iniciou-se depois o longo processo de procura de um tecido ideal.


É verdade que um algodão floral como este não é o mais típico de Portugal. No entanto  os portugueses estabeleciam contactos comerciais com a Virgínia, a Carolina do Norte e a Inglaterra, facto hoje atestados pelas evidências arqueológicas deixadas nesses territórios. Trocavam especiarias, produtos piscícolas, vinho da Madeira, peças de faiança... Este tipo de algodão com padrão floral lanceolado, típico das colónias americanas, poderia portanto advir desses mercados, pelo que considero possível que este tecido chegasse a Portugal. 



Procurei por isso um tecido em algodão que se adaptasse. E encontrei este na Mike Tecidos!


Fotografia de Mike Tecidos

Chegou depois a altura de dar uso ao recente molde adquirido Dresses of the late Rococo (RH285). Como já anteriormente referir no post antigo, este molde tem os seus problemas. O molde para a saia não existe, limitando-se a dar a parte superior, do corpete, que por si não ligam bem as três peças que o constituem, assim como as alças não correspondem com o corpete. Foi realmente necessário consultar a bibliografia da Janet Arnold e da Nora Waugh para conseguir produzir uma peça historicamente correcta. Depois de muito trabalho, de que muito me valeu a ajuda e a persistência da minha querida fada da costura, a minha mãe, o resultado está à vista! 







E mesmo a tempo de o estrear nas próximas recriações!






Algodão: Miketecidos
Colchetes e linhas: Retrosaria Arte&Lã
Fotografias: MET Museum

Algibeira



Hoje vamos falar de um acessório que mais prazer me deu a produzir... a Algibeira.

Comecei por reaproveitar o tecido de burel vermelho (que adquiri através da Wonatur), que me sobrou do projecto do Stays, e surrobeco (adquirido na Loja do Sr. Manuel) de uma saia, para fazer o bolso.

A inspiração para a forma tirei-a de uma série de imagens de algibeiras portuguesas de meados e finais do
Século XIX. Simultaneamente tentei conjugar a decoração bordada que frequentemente se encontra nos bolsos interiores do século XVIII.

Sentindo-me inspirada, desenhei em papel vegetal o desenho de bordado que pretendia, com uns twist “à moda portuguesa” - Claro está que não podia faltar uma cruz! Para personalizar, bordei o apelido da minha família que consta que já existia na zona da Beira interior em inícios do século XIX e ainda uma heráldica a ela associada.



A fita de atar é de veludo azul-escuro.




Por fim, a algibeira foi forrada com um algodão lindíssimo cedido por, mais uma vez, a Sra. Fátima.



Adorei fazer esta algibeira. Foi relativamente rápido, demorei sensivelmente 5 dias (1/2h por dia) para a terminar, com um alicate sempre à mão - Sim, porque perfurar 2 camadas de burel e 1 de surrobeco não foi pera doce, mas fez-se.










Burel: Wonatur
Surrobeco: Loja do Sr. Manuel
Fita de Veludo: Retrosaria Arte&Lã
Linhas de bordar: Anchor, O Baú das Linhas

Nehelenia Patterns


Pois é! 

Cometi uma loucura! Mas valeu bem a pena. 

Recentemente adquiri uma série de moldes de costura de época da loja Nehelenia Patterns, e não podia estar mais satisfeita. Encomendei moldes sobretudo de roupa e acessórios femininos de várias marcas: Nehelenia Patterns; Rocking Horse Farm; e o meu preferido Laughing Moon Mercantile.




Como vêem, abrange duas épocas: finais do século XVIII, a Época Reformista; e inícios do século XIX, a Época da Regência - que são precisamente as épocas que recrio com maior frequência ultimamente.


Ainda não tive muito tempo para analisar o que chegou, mas posso dizer que recebi a encomenda em apenas 5 dias! Super rápido e moldes muito bem empacotados e em excelentes condições.


Aviso que nos moldes da Rockinhg Horse Farm os tamanhos são ENORMES (no kidding), um S ficava-me largo (e eu sou magrinha) - sei isto porque já o usei (e em breve irei publicar um dos meus mais recentes "outfits"). O facto de os moldes serem fotocopiados também não ajudou muito. Havia certas partes com importantes indicações que não eram bem legíveis. Fora isso, bons moldes, com um bom guia de costura anexado.


Dos moldes da Nehelenia Patterns já não posso falar tanto porque ainda não tive oportunidade de os usar. Do que vi, são os únicos que não possuem guias de costura anexados, mas os moldes são bons e fáceis de compreender.


E por último,algo que eu já desconfiava, a Laughing Moon Mercantile é E-X-C-E-L-E-N-T-E! Os moldes de modelos são absolutamente lindos, com vários tamanhos e variâncias de modelos de fácil compreensão, um guia de costura completíssimo e ainda um compêndio com várias figuras de época que servem de inspiração aos modelos. São dos moldes mais caros, mas são muito muito bons!


E é por estas e por outras que cada dia que passo a recriar me identifico cada vez mais com isto...


Sou muito boa a fazer escolhas sábias e a poupar dinheiro... 
Estou a brincar! Sou uma recreadora!


Brevemente espero dar uso a estes moldes e fica a promessa que aqui vou partilhar os resultados.





Stays (1770 - 1790)


Hoje partilho com vocês uma das primeiras peças que produzi com a preciosa ajuda de duas pessoas que me são muito queridas, o Rafael e a Sra. Fátima. 

Tratam-se de uns Stays, uma das peças mais características do figurino feminino para a época moderna. Após participar em vários eventos de recriação histórica de Guerras Peninsulares referentes às Invasões Francesas como popular portuguesa, senti a necessidade de melhorar o meu guarda-roupa de recriadora. E, como é habitual, escolhi começar logo pela peça mais morosa e exigente de paciência.

Comecei por pesquisar inspirações, algo que se enquadrasse na última década do século XVIII, e encontrei esta preciosidade da Victoria & Albert Museum:


Stays (1770-1790), England. V&A.


Trata-se de um Half-Stays, que significa que contêm metade das barbas de baleia que um Full-Stays teria.Adquirida a inspiração, foi altura de procurar moldes. Encontrei na Norah Waugh e no estilista Ralph Pink duas grandes ajudas.


Norah Waugh - "Corsets and Crinolines", p. 42

Depois pensei no tecido. Em vez da seda da peça original queria adaptar para um tecido que uma camponesa ou burguesa do interior de Portugal usaria… o burel. Para o forro da camada do meio usei pano cru de algodão e, para a camada interior um algodão vermelho estampado com pequenas flores brancas (tecido gentilmente oferecido pela Sra. Fátima).


Para a armação utilizei corda de aço plastificada.


Passada esta fase extremamente exigente, da qual muito me valeu a impagável ajuda do Rafael, restou cozer à mão a fita de bainha em todo o contorno do corpete e alinhavar os ilhoses (falar é fácil, fazer é outra coisa). Nesta fase tenho muito a agradecer à Sra. Fátima, porque me fez praticamente todo o trabalho com um perfeccionismo de que só uma costureira profissional da alta-costura consegue.


E o resultado foi este…


E perguntam os curiosos: 


“Então e qual é a sensação de o usar?”

Boa, bastante confortável, por estranho que pareça. É como se estivesse a usar um top justo e um super-push up. Também me revejo na opinião de muitas recriadoras de que é como se alguém me estivesse a dar um abraço apertado.

“E respirar? Consegues?”


Sim!

Ora o grande preconceito criado por Hollywood e por vitorianos machistas que ainda persiste até aos nossos  dias, há que desmistificar! Muito confortáveis, ótimo suporto, e não provoca desmaios.








Burel: Wonatur
Forro, fita de bainha e cordão de algodão: Sonidete Texteis Lar
Fotografias: V&A Museum; Alma & You Photography 

About Me



Olá a todos!

Chamo-me Beatriz e sou arqueóloga. Tenho como "hobby" a recriação histórica, a costura e, como costumo dizer "I'm just an apprentice", estou em constante aprendizagem.

Tenho uma enorme paixão pelas vidas passadas, desde a Idade Média à WWII. Ao recriar o vestuário de várias épocas, tento ser o mais fiel possível, dentro das minhas habilidades e possibilidades. Também me dedico a recriar acessórios e penteados característicos, algo que me dá uma enorme satisfação.


Vou buscar a minha inspiração a fashion plates da época, a peças de museu e a criações de outras recreadoras. Criei este blog de forma a partilhar os meus trabalhos para todos os interessados ou simples curiosos.





Um grande obrigada pela vossa visita.

Espero que gostem!






Blue Day Gown - Wrapped Gown II (1810-1814)

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